Sociedade CONTROVERSO

Uma conversa sobre notícia falsa na internet

Especialmente nos útimos dias o famoso tema ganhou novos descobramentos no Brasil. Afinal, o que é fake news? Quem comete, e com qual intenção?

25/04/2020 20h32 Atualizada há 3 semanas
Por: Renan Silveira

Grandes veículos, como a Folha de São Paulo, anunciaram hoje que o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, foi identificado pela Polícia Federal como o articulador de um esquema criminoso de produção de fake news.

No dia anterior, a mesma Folha de São Paulo antecipou a demissão do ex-ministro Sergio Moro, ainda antes do anúncio oficial. Então, muitos políticos e blogueiros alinhados à visão do presidente, e de seu filho, acusaram vorazmente o veículo de propagar fake news.

A notícia foi confirmada logo depois.

Comumente atacado, o veículo saiu da defensiva e expôs diversos acusadores que rotularam de fake news o "furo de reportagem" envolvendo o agora ex-ministro Sergio Moro. A Folha publicou em seu Twitter alguns prints daqueles que não se retrataram após o fato se concretizar.

A Folha é um dos veículos que mantem uma oposição ferrenha ao Governo de Jair Bolsonaro. As motivações podem ser muitas, ideológicas, editoriais, ou pode se tratar apenas de... jornalismo. O jornalismo, gostemos ou não de suas publicações, não deve pedir licença - principalmente a políticos.

Veículos de comunicação, como a Folha, no entanto, não estão acima do bem ou do mal, e devem ser cobrados, e responder legalmente por qualquer publicação caluniosa que possa vir a ocorrer. Mas afinal, veículos como a Folha de São Paulo fazem fake news? Analisamos teóricos e pesquisadores da área da comunicação para responder essas e outras questões.

  A síndrome de pôr a culpa nos jornais se espraia como um denominador comum pelas mais disparatadas doutrinas e correntes partidárias e ideológicas  
Eugênio Bucci

Se a Folha mantivesse uma cultura de notícias controversas e inconsequentes, mereceria tão somente ser ignorada e ver sua audiência despencar. É assim que as coisas funcionam, ou deveriam funcionar.

No entanto, podemos observar um fenômeno contemporâneo que é aperfeiçoado pelas novas mídias, e que tem alguns líderes mundiais como percussores.

Conforme explana a crítica literária norte-americana, Michiko Kakutani, o 45° presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mentiu de forma tão prolífica e em velocidade capaz de somar 2140 alegações falsas ou enganosas durante o seu primeiro ano de mandato. Uma média de quase 5,9 mentiras por dia, registradas pelo The Washington Post.

O mesmo Trump, assíduo usuário do Twitter, usa o site para apresentar sua visão dos ‘fatos alternativos’. No início de 2018, por exemplo, ironizou grandes jornais anunciando os vencedores de um "Fake News Award".

Em uma disputa entre o que é verdade ou não é, qual o parâmetro? Se existe um parâmetro, por que ele deixou de ser usado no âmbito político?

O conhecido ensaio “Verdade e Política”, publicado pela filosofa política Hannah Arendt, na revista New Yorker, no longínquo 1967, estabeleceu o reconhecimento de uma parcela significativa da verdade como: "aquela que é baseada em fatos e pode ser comprovada e certificada experimentalmente".

O mesmo estudo foi motivado pela preocupação de que os políticos estariam - desde aquela época - tentando transformar fatos em opiniões. Portanto, a necessidade de distinção entre estas era determinante para a democracia.

Em 2018 o professor italiano de comunicação política, Cristian Vaccari. notou que:

— Os políticos – em especial uma gama que chamamos de populistas – estão distorcendo, a seu bel-prazer, as tais verdades factuais para defenderem causas que são, em geral, demagógicas e retrógradas.

Grandes veículos, tanto do Brasil quanto do mundo, vivem de audiência. E atrás deste objetivo recorrem a muitos artifícios, as vezes negativos do ponto de vista ético, como é o caso do sensacionalismo.

Gêneros opinativos também são normalmente apelidados de fake news. Como é o caso de colunas opinativas e charges, por exemplo. Ou então, como saber quando uma ironia agressiva ou opinião radical cruzou a fronteira da opinião e se transformou em uma "notícia falsa"?

O conselheiro e mentor de empresas inovadoras, Silvio Genesini, lembra de uma postagem comum nas eleições americanas. O título era “Exército de Jesus”, e mostrava Hillary Clinton, fantasiada de diabo, em uma queda  de braço com Jesus e a sugestão: “Curta se você quer que Jesus vença”.

Apesar de não contribuir em nada para o debate político, e incentivar uma radicalização, o caso acima não se encaixa em um caso de fake news. Colunas opinativas e charges, por óbvio, também não.

Os autores Claire Wardle e Hossein Derakhshan descrevem as fake news como uma desordem e poluição na informação; além disso, contam que o termo foi apropriado por políticos de todo o mundo para designar aquelas notícias que não lhes são convenientes.

 

Dando nome aos bois

Uma pesquisa produzida pelo Reuters Institute for the Study of Journalism com a Universidade de Oxford, notou que entrevistados associavam fake news a textos satíricos, publicidade disfarçada e reportagens superficiais ou sensacionalistas. E é exatamente aí que estamos perdendo a batalha para as fake news.

A torcida pela própria versão da história faz com que pessoas chamem de fake news todo e qualquer tipo de notícia, desde aquelas que não apontam qualquer inconsistência do ponto de vista jornalístico, até aquelas caracterizadas por serem sensacionalistas, rasas, inconclusivas, ou até mesmo paródias humorísticas, por exemplo.

Por que não a acusamos de ser o que é? Sensacionalismo é sensacionalismo, e vice-versa. Chamar tudo de fake news torna tudo deveras subjetivo. A banalização do termo resulta no seu uso indiscriminado.

Por sua vez, é preciso reafirmar diariamente o papel da mídia, que deve desempenhar função independente para apurar e verificar. Impedindo, desta forma, que políticos façam uso da verdade factual como bem entendem.

 

FONTES UTILIZADAS:

ARENDT, Hannah. Verdade e política. Tradução Manuel Alberto, v. 2014, 1967.

BUCCI, Eugênio. Quando só a imprensa leva a culpa (mesmo sem tê-la). estudos avançados, v. 23, n. 67, p. 61-78, 2009.

GENESINI, Silvio. A pós-verdade é uma notícia falsa. Revista Usp, n. 116, p. 45-58, 2018.

KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade: Notas sobre a mentira na era Trump. Editora Intrinseca, 2018.

VACCARI, Cristian. Research note: Italian parties' Websites in the 2006 elections. European Journal of Communication, v. 23, n. 1, p. 69-77, 2008.

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. CouncilofEuropeReport, v. 27, 2017.

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.