Dólar comercial R$ 5,38 0.662%
Euro R$ 6,14 +0.379%
Peso Argentino R$ 0,08 -0.133%
Bitcoin R$ 52.542,2 +0.037%
Bovespa 101.790,54 pontos +1.34%
Economia e Inovação ENTREVISTA

Coordenador do curso de Enologia avalia vitivinicultura na Campanha Gaúcha

Criada em 2011, graduação no Campus Dom Pedrito é o primeiro bacharelado no Brasil, e colabora pra desenvolvimento da prática na região.

28/04/2020 22h29 Atualizada há 3 semanas
Por: Augustho Soares
Turma de enologia (Foto: Rafael Schumacher/ Arquivo Pessoal)

É certo afirmar que a vitivinicultura vem crescendo nos últimos anos na Campanha Gaúcha. Na última década, o setor teve bons resultados tanto em qualidade como em quantidade.

A concentração de propriedades de vinhedos na região está principalmente em Sant’ana do Livramento, Bagé, Quaraí e Dom Pedrito. No entanto, ainda existem vinhedos e vinícolas São Borja, Itaqui e Uruguaiana.

Muito disso se deve ao clima da região, que possui menor volume de chuvas, e é o mais quente no sul do Brasil. Houve ainda a criação da associação Vinhos da Campanha, em 2010, que desenvolveu atividades para fortalecimento do setor, possibilitando o aperfeiçoamento de técnicas de produção nos vinhedos.

Também se destaca a capacitação de profissionais, conquistada graças aos estudos e atividades produzidas no campus Dom Pedrito da Universidade Federal do Pampa (Unipampa).

A instituição possui o primeiro curso de Bacharelado em Enologia do Brasil, fundado em 2011. Conversamos com o coordenador da graduação, Rafael Lizandro Schumacher, sobre como a Universidade vem atuando e quais as perspectivas para o setor na região.

Vinícola Peruzzo, em Bagé (Foto: Marcos Nagelstein/Mtur)

Segundo o professor, o bacharelado em Enologia da Unipampa vem contribuindo para o desenvolvimento da atividade na região, com a qualificação da mão de obra, além de tornar a Campanha Gaúcha em um centro de excelência no ensino e pesquisa na área.

– Acredito que nossa maior conquista, e o nosso principal objetivo, é conseguir oferecer ensino gratuito e de qualidade dentro de uma instituição pública, e estes frutos já estamos colhendo ao ver que estamos conseguindo qualificar o setor por meio de profissionais altamente capacitados – afirma o docente.

 

ENTREVISTA:

BN: Na tua visão, como tem se desenvolvido a vitivinicultura regional nos últimos anos?

Coordenador do curso (Foto: Rafael Schumacher/ Arquivo Pessoal)

RAFAEL: Temos muitos vinhos de destaques nacional e internacional, ou seja, estamos caminhando para escrevermos uma história muito bonita do vinho do pampa ou da campanha gaúcha.

Porém a vitivinicultura é uma atividade complexa e cara. Ela requer muito conhecimento e altos investimentos e o que vemos é que com o passar dos anos, as áreas de plantios e o número de empresas e novos investimentos foram perdendo força, especialmente pelas dificuldades do setor, estas da própria atividade, mas também muito do setor como um todo.

Preços dos vinhos importados, alta carga tributária e fundamentalmente a deriva de agrotóxicos de outras atividades agrícolas são exemplos de fatores que jogam contra estes novos investimentos.

Há a necessidade de que à vitivinicultura seja visualizada pelo ente público com maior importância, como em outras atividades agrícolas, pois assim tenho certeza que a região se tornará mais protagonista no mundo do vinho.

 

BN: Desde a criação do curso, quais foram as suas contribuições para a região vinícola da Campanha?

RAFAEL: Especialmente na formação de capital humano e de pesquisas de qualidade. Hoje, temos egressos do curso trabalhando nas principais vinícolas da região. Além disso, temos parcerias com essas empresas no desenvolvimento de estudos que têm por objetivo suprir as demandas do próprio setor, dentro das particularidades de cada uma.

Como o curso é muito novo, os principais frutos serão colhidos ainda nos anos que virão, pois além de produzirmos e testarmos um número considerável de vinhos e derivados, iremos poder estudar, em virtude do nosso vinhedo, de que forma se comportam inúmeras variedade inéditas na região e no país, não apenas no que se refere a adaptação da videira à região, mas também da qualidade do produto final.

 

BN: Sendo a sede do curso em Dom Pedrito, os produtores de uva do município e arredores têm sido beneficiados de alguma forma em razão disso?

RAFAEL: De diversas formas. Temos convênios com diversas empresas e produtores, realizamos pesquisas nas diversas áreas que perpassam toda a extensão da cadeia produtiva.

Além disso no ano de 2019 deu-se início a uma Especialização em Enologia em Dom Pedrito, e seu objetivo é justamente qualificar ainda mais os profissionais que trabalham na região. Acreditamos que estamos conseguindo isso, pois temos profissionais de diversas empresas, além de produtores que estão cursando.

 

BN: O curso foi criado praticamente ao mesmo tempo que a associação Vinhos da Campanha. Como é a relação com essa entidade?

RAFAEL: Temos egressos que já estagiaram ou estão trabalhando em toda a região. Atualmente temos enólogos egressos atuando em Dom Pedrito, Bagé, Itaqui e Sant’Ana do Livramento.

Destacamos também que temos muitos egressos atuando no principal polo vitivinícola do Brasil, a Serra Gaúcha, além de outros estarem atuando no Uruguai.

 

BN: Como o curso se mobiliza para fomentar o enoturismo na região?

RAFAEL: De forma direta temos professores que se dedicam a isso através de projetos de pesquisas e extensão. Também é muito comum a participação da Unipampa em diversos espaços em que este assunto é tratado.

Indiretamente já atuamos em parceria com outras instituições, como por exemplo o Sebrae, através do Projeto Líder, que dentre outras coisas, visa fomentar o turismo na região. Além disso, auxiliamos todos os anos em eventos como é o caso do Encontro Binacional de Enoturismo e Enogastronomia que ocorre todos os anos em Sant’Ana do Livramento.

Ademais, temos egressos nossos que atuam na linha de frente do Enoturismo, não só da região, por exemplo o Presidente do Conselho de Turismo de Dom Pedrito é um enólogo egresso nosso.

 

BN: Como o bioma pampa contribui para a produção de vinhos?

RAFAEL: A sinergia das características de solo, relevo e clima, aliadas a escolha de variedades e às técnicas de condução dos vinhedos e produção dos vinhos – o que todos chamamos de Terroir – faz com que as vinícolas da região elaborem vinhos que já foram premiados em vários concursos nacionais e internacionais, sendo aclamados pela crítica.

 

BN: Este bioma auxilia tanto para quantidade quanto para qualidade?

RAFAEL: A questão da quantidade é uma pouco relativa. Existe uma busca incessante das vinícolas em aliar o máximo de qualidade com uma quantidade de uvas satisfatória, embora isso nem sempre seja possível.

 

BN: Por fim, como a pandemia da Covid-19 deve afetar na produção de vinhos na região?

RAFAEL: A safra 2020 já havia terminado, ou estava praticamente no final quando as ordens de distanciamento social iniciaram. Acredito que no âmbito da indústria, os impactos foram quase nulos (em termos de desenvolvimento do serviço).

No entanto, a universidade teve que paralisar suas atividades, e com isso, não conseguimos terminar a elaboração dos vinhos, o que vai comprometer bastante o andamento das pesquisas.

Somente depois de voltar à normalidade é que poderemos avaliar os reais impactos. Cabe deixar claro que ainda não temos dados sobre o impacto no consumo, outro ponto fundamental para a atividade.

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.