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Economia e Inovação DESENVOLVIMENTO

Parque Tecnólogico de Alegrete é pioneiro na região

Depois do primeiro polo de produção científica e tecnológica na Fronteira Oeste, o Pampatec, as iniciativas podem se multiplicar. Confira o panorama.

14/05/2020 13h36 Atualizada há 1 mês
Por: Renan Silveira
Parque fica em anexo á Unipampa campus Alegrete. (Foto: Divulgação)
Parque fica em anexo á Unipampa campus Alegrete. (Foto: Divulgação)

O Parque Científico e Tecnológico do Pampa – PampaTec é um projeto da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) que visa desenvolver a região como pólo de geração tecnológica. Foi construído através de recursos da própria instituição de ensino superior, em conjunto com o Programa Gaúcho de Parques Tecnológicos, e inaugurado oficialmente em 2015.

Atualmente o Pampatec conta com área de 647 m², 10 salas para startups, ar condicionado, internet, telefonia, portaria, vigilância, limpeza, sala de reuniões e espaço para alimentação.

A ideia é que a estrutura ofereça um ambiente de cooperação entre universidades, governos e as empresas de base tecnológica, além de disseminar a cultura empreendedora em Alegrete e região.

 

INOVAÇÃO VOLTADA AO DESENVOLVIMENTO REGIONAL

O professor João Pablo ministra disciplinas nos cursos de engenharia de software e ciência da computação na Unipampa, e ressalta os benefícios dos parques se espalharem pelas cidades da região, bem como a promissora possibilidade de aproveitarem lições já experimentadas em Alegrete.

Se a gente puder motivar as demais cidades de alguma forma, cada uma com sua vocação e necessidade, será ótimo. Poderia agregar muito ao nosso setor primário. Algumas empresas do Pampatec já tem esse olhar, e a gente sabe que o agronegócio é a base da nossa economia — adianta.

Quem também vê com bons olhos um possível avanço dos investimentos regionais em inovação, é Alessandro Girardi, docente que atua com engenharia eletrônica na Unipampa campus Alegrete. Para ele, os investimentos evitariam a fuga de cérebros e gerariam empregos de qualidade.

Girardi ainda defende que a região seja mais independente na geração de tecnologia, uma vez que aquela agregada à matriz econômica regional é majoritariamente dependente de outras regiões do estado e do país.

— Somos grandes produtores de grãos, carne e outros alimentos. Se aumentarmos a produtividade e a industrialização destes produtos, com certeza teremos um incremento muito grande no PIB e, consequentemente, no desenvolvimento econômico e social da região — prevê.

 

FUGA DE CÉREBROS E EXÔDO REGIONAL: UM PROBLEMA ANTIGO

A fuga de cérebros parece ser um fato incontestável, uma vez que em uma área territorial de 64.478 km², até pouco tempo não haviam iniciativas que se propunham a incentivar a permanência da mão de obra qualificada na região. Principalmente os egressos de cursos superiores.

Conversamos com Luciano Brum, que graduou-se e concluiu o mestrado na Unipampa, em Bagé. Ele é natural de Dom Pedrito, e teve formação na área de engenharia de computação. Este ano, logo após a conclusão da pós-graduação, viu em Santa Catarina a oportunidade de crescer profissionalmente, e entrou para as estatísticas de jovens qualificados que deixaram a região.

Ele, no entanto, garante que a sua preferência seria por permanecer morando na região, e sua decisão foi tomada exclusivamente por questões profissionais. Destacou ainda que muitas das vagas da Unipampa são ocupadas por estudantes de outros estados. E observa que os mesmos que vêm até a Campanha com o objetivo de concluir a graduação, logo retornam aos seus locais de origem que geralmente oferecem mais vagas de emprego: "não permanecem".

  Tenho muitos colegas que agora trabalham em multinacionais, em São Paulo, ou até em outros países. O mestrado que eu fiz, de computação aplicada, até veio para auxiliar a agricultura e pecuária local por meio das tecnologias, mas a gente acaba esbarrando no mesmo problema. Após a formação não há empresas que contratem. 
Luciano Brum, engenheiro da computação.

O exemplo citado por Luciano é exatamente o caso de outro engenheiro de computação, o bajeense Ricardo Robaina, mestrando pela Unipampa. Ele agora vive em São Paulo, onde trabalha em uma empresa com sede nos Estados Unidos. Robaina afirma que apesar dos benefícios das vagas disponíveis em grandes centros, também há muitos fatores contrários em uma mudança, como o alto custo de vida.

— Eu gosto de Bagé. Minha família e meus amigos estão aqui. É uma cidade tranquila. Fui embora porque tive oportunidade de trabalhar com software livre, que é algo que eu acredito. Acabei aceitando o desafio, mas se eu tivesse oportunidade aqui, não teria ido embora — confessa.

Robaina destaca a grande oferta de formação superior na cidade e na região como um fator determinante, que facilitaria um processo de empreendedorismo na área de inovação.

— Em Bagé há quatro instituições de ensino superior (presenciais) que oferecem pelo menos um curso ligado à tecnologia. Temos também cursos em Alegrete, que não é tão longe. No IFSul ainda existe um técnico em informática, que forma jovens com uma base bem melhor do que a que eu tive, por exemplo. Além do mestrado em computação aplicada que eu estou realizando — lembra.

No entanto, a falta de acesso à empresas durante a graduação, segundo ele, é um fator extremamente limitante.

  Um grande problema que a gente tem como aluno, é não ter opções para estágio. A gente se forma sem trabalhar, e quando acaba o curso, não tem experiência nenhuma. Quem vive em grandes centros leva essa vantagem no mercado de trabalho
Ricardo Robaina, engenheiro da computação.

O que escancara a dura questão levantada pelos professores João Pablo e Alessandro, e retrata de forma mais ampla a realidade enfrentada por Luciano e Ricardo, é que no período de 2000 a 2010, devido à falta de oportunidades, muitas cidades não só sofriam com a fuga de cérebros, mas, literalmente, esvaziavam. 

Recém citada, a maior cidade da Campanha, Bagé, não chegou a perder habitantes, mas estagnou e cresceu abaixo da média de outras cidades de porte semelhante. As perdas mais significativas ocorreram especificamente na Fronteira Oeste. A exemplo de Alegrete, que foi a segunda cidade do RS que mais perdeu habitantes. Segundo os censos do IBGE, foram, nada mais e nada menos, do que 6.665 moradores deixando a cidade.

O que veio de brinde com o esvaziamento, por certo, foi a perda de autoestima, mas também o surgimento de significativos esforços que alterassem o panorama regional. O duro golpe se repetiu em Santana do Livramento, e foi ainda mais grave. A cidade liderou o número de perdas, com saldo negativo de 8.336 pessoas na década citada.

As três cidades (da Fronteira Oeste) que mais perderam habitantes, em relação às três que mais receberam (no estado)

Gráfico interativo, clique ou passe o mouse sob os pontos para visualizar os dados

A região de Caxias do Sul, polo industrial de alta tecnologia, foi quem absorveu a maioria dos migrantes dos anos 2000. Somente a cidade da Serra aumentou sua população em 75 mil no mesmo período.

João Pablo salienta que o primeiro passo é manter os profissionais qualificados por aqui. Para só então, em um segundo momento, pensar em atrair novos profissionais. E que nesse contexto, o Pampatec pode colaborar de muitas formas.

— Estamos falando de empregos, desenvolvimento de renda, da economia, de manter os talentos da nossa região. É claro que nem todos alunos serão empreendedores, mas eles trabalharão em empresas que alunos empreendedores criaram. Não adianta repetir outras cidades universitárias e formar gente para ir embora. A gente tem que criar espaços que fixem as pessoas aqui. E que num futuro, possa inverter, que as pessoas venham de fora porque aqui tem oportunidades — explica.

 

INICIATIVAS NA REGIÃO

Mapa Inova RS (Imagem: Teylor Pitana, Anderson Silva/ Reprodução)

As regiões da Campanha e Fronteira Oeste estão situadas no mesmo eixo estratégico definido pelo programa Inova RS, do Governo do Estado. Foram estabelecidas oito regiões de inovação, e a proposta é de construir uma agenda comum entre os municípios. Os critérios de divisão têm em vista a proximidade e a similidade dos ecossistemas empreendedores dos envolvidos.

Além do mais, estas duas regiões também possuem demandas sócio-econômicas e limitações semelhantes. Até 2006, exceto pela presença da Universidade da Região da Campanha, agora Centro Universitário da Região da Campanha, e de algumas poucas empresas de alcance regional, pouco era o intercâmbio de conhecimento e material humano entre as cidades.

A chegada de instituições como o a Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha (IFFar) garantiu uma relativa relação de troca de experiências entre os campi. E incluem na sua rota, inclusive, cidades em etapas mais avançadas nas áreas de ensino e inovação.

É o caso do IFSul, por exemplo, que possui sede na cidade de Pelotas, e campi na região, nas cidades de Bagé e Santana do Livramento. O IFsul é parceiro do Pelotas Parque Tecnológico, uma iniciativa que já é referência em infraestrutura e integração entre as instituições daquela cidade.

Por sua vez, o IFSul também é um dos pioneiros no projeto que visa a construção de outro parque tecnológico, o de Bagé, que possui projeto para ser construído em administração compartilhada com a Unipampa, mas que ainda aguarda definições.

 

PARQUE TECNOLÓGICO EM BAGÉ

Projeto previa construção em anexo à Unipampa campus Bagé (Foto: Divulgação)

O Parque Científico e Tecnológico da Campanha tem projeto para instalação junto à Unipampa campus Bagé. Uma vez instalada, teria sua administração compartilhada entre a Unipampa e IFSul. Contaria ainda com apoio da Urcamp, da Associação Comercial e Industrial de Bagé (Aciba), Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), da Prefeitura e da Câmara de Vereadores de Bagé.

O projeto começou a ser discutido em 2013, pleiteou verbas públicas, mas não foi contemplado. Em 2017, uma comitiva liderada pelo deputado federal Affonso Hamm (PP), com lideranças locais, reitores, e a senadora Ana Amélia Lemos foi recebida pelo então ministro da Educação, José Mendonça Filho, para tratar da viabilização do projeto.

Na época, havia a expectativa pela liberação do montante de R$2,5 milhões que chegou até mesmo a ser anunciado, mas segundo o coordenador responsável pelo projeto, professor Ivonir Petrarca, o projeto jamais recebeu alguma verba.

Hoje, três anos depois, o projeto persiste, mas não contou com novos avanços. Ainda encontra-se na etapa de captação de recursos que viabilizem a estrutura.

O Parque, no que se refere a documentação, área, projeto arquitetônico, planejamento estratégico, regimento, e credenciamento junto ao governo do estado, está tudo atendido. Já temos oito empresas com termo de adesão assinado, aguardando a edificação para se instalarem — garante.

Os eixos prioritários de desenvolvimento em Bagé seriam áreas de energia, engenharia, software e agronegócio. Petrarca explica que o intuito é atender as demandas e necessidades da região: "nos colocaria no contexto da inovação e tecnologia".

 

A PRIMEIRA INCUBADORA DA REGIÃO DA CAMPANHA

(Foto: Chrystian Ribeiro/Ascom Urcamp)

Ainda em Bagé, a Urcamp possui projeto para dar início à primeira incubadora da Região da Campanha. Uma iniciativa que se diferencia, uma vez que parte de uma instituição de ensino comunitária. Com um histórico de atuação direta com produtores e empresas do município, a iniciativa deverá focar em suprir demandas e problemas locais.

Conforme nos explica o gerente de Campus e Inovação, Leandro Pires, as medidas devem ser institucionalizadas e incluídas ao calendário acadêmico da instituição. Estas ações devem integrar outros campi, presentes em cidades como Dom Pedrito, Santana do Livramento e São Gabriel.

Os novos ambientes de inovação estão apoiados no ecossistema da Urcamp, nos pilares da educação, políticas públicas, empreendedores e conexões, com abrangência a nível regional em 20 municípios distribuídos pela Fronteira Oeste e Campanha — explica.

Estruturalmente, a Urcamp Tech Incubadora Social (Utech-I) deverá ser instalada utilizando os espaços já existentes da Urcamp campus Central, em Bagé, os quais foram modernizados recentemente. Um espaço aberto de coworking também deverá compor a proposta.

Pires informa ainda que a Urcamp está pleiteando recurso de R$314.000,00 para equipamentos e mobiliarios.

Através do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (COMUNG), estamos participando de uma emenda parlamentar à Lei Orçamentária do ano de 2020: o Programa: 2021 - Ciência, Tecnologia e Inovação Apoio à Criação, Implantação e Consolidação de Parques Tecnológicos e Outros Ambientes de Inovação com Ação ao Fomento à Pesquisa e Desenvolvimento Voltados à Inovação e ao Processo Produtivo.

 

JÁ COMEÇOU A MUDAR

Uma das empresas que conversou conosco foi a DevPampa, que possui três anos de existência e é formada integralmente por ex-alunos do curso de engenharia de software da Unipampa. Ela atua na área de software, com foco no desenvolvimento de aplicativos móveis, sites, sistemas e marketing digital.

Agressos da Unipampa atuam no Pampatec (Foto: Divulgação)

Os seus sócios, Peterson Rodrigues, Adriel Herter e Adriel Rodrigues destacam que a presença no parque possibilita continuar mantendo contato com o meio universitário mesmo após a formação. Além do mais, torna possível contribuir com alunos e empreendedores em potencial.

— Nós fornecemos vagas para estágios durante todos os semestres, e a possibilidade de que os estudantes realizem aplicações práticas de suas pesquisas ou trabalhos de conclusão de curso em nosso ambiente — emitiram.

Para Rodrigues (P.), ter à disposição pessoas qualificadas, e infraestrutura de qualidade, faz toda a diferença. E ambientes como estes deviam se espalhar.

Com certeza mais "pampatecs" trariam um desenvolvimento maior para essa região, pois durante esses anos já nos encontramos com muitos empreendedores sonhadores como nós. A gente, por exemplo, tem tecnologias implantadas pela região, que provavelmente não existiriam sem nosso vínculo com o PampaTec — afirma.

Outra empresa surgida neste contexto, foi a Agrare, que busca integrar em uma única plataforma a gestão de agricultura, pecuária, e gerenciamento financeiro. Um dos seus sócios, Alex Becker, também formado em engenharia de software pela Unipampa, e mestre em computação pela UFSCar, destaca uma série de fatores positivos em ter uma empresa incubada.

Agrare é voltada para produtores rurais (Foto: Divulgação)

— Além de ter um custo baixo para criação de empresa e todo o suporte dos profissionais do parque, também abre a possibilidade de participar de uma série de editais de fomentos, e dá uma grande visibilidade para as startups.

A Agrare atualmente está participando de uma grande campanha em conjunto com a Bayer Brasil, Sicredi, AhTech Garage e a Órbia (plataforma digital na qual a Bayer é acionista). Essa parceria possibilitar auxiliar produtores rurais de todo o Brasil no contexto de pandemia, disponibilizando temporariamente o sistema de gestão de forma gratuita.

Para integrar a lista de empresas que compõe o projeto, a empresa originada no Pampatec participou de um concorrido processo de seleção envolvendo empresas e startups de todo o Brasil. O que comprova a eficiência desenvolvida no parque tecnológico alegretense, que mesmo existindo há tão pouco tempo, já começa a dar os primeiros grandes frutos.

Os últimos dados divulgados pelo Pampatec apontavam que, até o ano passado, as empresas incubadas já haviam gerado mais de 70 empregos ao longo dos primeiros quatro anos de existência do parque. O valor do faturamento destas empresas ultrapassava a casa dos R$10 milhões, com arrecadação de mais de R$ 3 milhões em impostos.

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