Sociedade DEMANDA REGIONAL

O que mudaria com a implantação do serviço de radioterapia em Bagé?

O Ministério da Saúde divulgou atualizações sobre o processo de escolha da empresa que deve construir a estrutura. Entramos em contato com uma antiga paciente oncológica que relembrou sua história.

23/06/2020 01h15 Atualizada há 2 semanas
Por: Augustho Soares
Sem estrutura em Bagé, pacientes precisam viajar para fazer tratamento em outras cidades. (Foto: Divulgação / EBSERH)
Sem estrutura em Bagé, pacientes precisam viajar para fazer tratamento em outras cidades. (Foto: Divulgação / EBSERH)

Ter que acordar durante a madrugada para viajar por mais de duas horas mesmo fragilizado por uma das doenças mais fatais. Essa é a realidade de muitas pessoas diagnosticadas com câncer na região da Campanha.

Sabendo disso, a implantação do serviço de radioterapia em Bagé é uma antiga demanda que envolve não só a saúde dos bajeenses, mas de pessoas de toda a região, que diariamente precisam ir até as cidades onde realizam o tratamento, como Pelotas, Rio Grande ou Porto Alegre.

Porém, nesta semana, a comunidade local foi informada através de uma matéria do Jornal Minuano, sobre uma nova etapa para este processo. O Ministério da Saúde emitiu notas técnicas de avaliação dos documentos de duas empresas que desejam realizar a construção da estrutura para a radioterapia no Hospital da Santa Casa de Caridade de Bagé.

Conforme a reportagem, ainda não existe um resultado para o procedimento, porém toda a atualização deste caso gera expectativas, que se ampliaram nos últimos dez anos, desde que foi inaugurada na Rainha da Fronteira a Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon).

 

A HISTÓRIA DE DENISE

Foto: Arquivo Pessoal

Quando falamos em radioterapia, estamos falando também no enfrentamento ao câncer, doença que atinge cerca de 46 mil gaúchos por ano, segundo levantamento do Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Entretanto, cada uma destas pessoas é uma vida com histórias e destinos diferentes. Para alguns, por exemplo, o dia 24 de abril de 2017 foi apenas mais uma segunda-feira após um fim de semana de descanso. Mas para a bajeense Denise Mór Oliveira, esta data ficou marcada pela descoberta de um câncer de mama.

Na primeira vez em que falamos com Denise, estávamos fazendo um trabalho no quinto semestre do curso de Jornalismo da Urcamp. Na época, ela ainda se sentindo fragilizada pelo choque ao passar pela doença, contou que a revelação lhe pegou de surpresa, o que a fez precisar de algumas semanas para se questionar sobre a situação, até decidir como reagiria a isso.

– Até tu te conscientizares que isso tem uma saída, que tu vai conseguir resolver, é muito difícil. Mas eu só pensei assim: vou num médico, preciso de exames, eu preciso de extensão e dar uma saída pra isso logo, antes que se torne algo maior – revelou.

Hoje, aos 61 anos, Denise está com saúde, mesmo tomando remédios para controle, e conta que se sente feliz por ter descoberto seu tumor ainda cedo, de forma que não precisou fazer quimioterapia e conseguiu passar pela cirurgia de retirada do nódulo e pelas sessões de radioterapia.

No entanto, ela se lembra de como foi difícil enfrentar o início da radioterapia, afinal, como o serviço ainda não é feito em Bagé, Denise precisou ir até Pelotas para realizar o procedimento.

Durante a primeira semana, a bajeense se lembra que todos os dias se acordava de madrugada para fazer a viagem, de quase 200 quilômetros, no carro disponibilizado pela prefeitura. Ela recorda, também, que embora o veículo oferecesse conforto, o retorno para a casa ainda era complicado.

– Só de ter que viajar todos os dias já é desgastante, mas a radioterapia queima o lugar onde tu tem o problema, então eu ainda tinha esse desconforto. Tinha pessoas que não reclamavam, mas também tinha gente que estava numa situação pior do que a minha e precisavam passar por isso – aponta.

Vale ressaltar que este mesmo caminho é feito diariamente por dezenas de pessoas, não apenas por pacientes de Bagé, mas também de Dom Pedrito, Candiota, Hulha Negra e outras cidades que poderiam ser beneficiadas com a implantação da radioterapia na Rainha da Fronteira.

 

GRATIDÃO AO ACOLHIMENTO LONGE DE CASA

A situação da bajeense só melhorou quando foi apresentada à Associação de Apoio à Pessoas com Câncer (Aapecan), por indicação de uma amiga que também fazia radioterapia e se hospedava na Casa de Apoio em Pelotas, um lugar que acolhe os pacientes oncológicos que não têm onde ficar após realizarem os tratamentos.

Para Denise, o suporte dado pela Aapecan foi fundamental. Em nossa entrevista, em 2018, ela lembrou que desde a primeira vez que entrou no local, se sentiu parte de uma família.

– Quando a gente chega na Aapecan, ou em outros lugares, chegamos doentes de corpo e de alma. É claro, tu precisa curar o teu corpo, mas isso o médico vai fazer, vai te ajudar a isso. Mas a tua alma, quem te ajuda realmente são as pessoas que te apoiam, a tua família, os teus amigos, e eu digo no meu caso: a Aapecan – destacou.

Em ação solidária, Denise fabricou máscaras para Unacon (Foto: Arquivo Pessoal)
Em ação solidária, Denise fabricou máscaras para Unacon (Foto: Arquivo Pessoal)

Com esse apoio, a bajeense percebeu o quão importante é a vida humana, e começou a fazer trabalhos voluntários. No início da pandemia do novo coronavírus, por exemplo, junto a amigas do grupo Borboletas que Cantam, formado por mulheres que convivem ou já tiveram câncer, ela participou de um projeto em que fabricou máscaras descartáveis para serem usadas na Unacon.

– Quando tu tem um medo de que vai morrer, tu começa a prestar atenção nas coisas. Eu preciso, eu quero e eu devo dar um foco para a minha vida. E ajudando as pessoas, acredito que vou conseguir – salienta.

Além disso, ela afirma que após a quarentena terminar, deseja ser voluntária na unidade da Aapecan de Bagé.

– Gratidão é a palavra certa, gratidão pelo que eles fazem por nós, pelos pacientes, por tudo o que eles ofertam para nós, que não é só o carinho e a parte financeira, é a parte emocional, principalmente – declara.

 

AAPECAN

(Foto: Divulgação)

Como já foi dito anteriormente, conhecemos Denise em 2018, através de um projeto para o curso de jornalismo. Nele, o grupo formado por integrantes que hoje atuam no Buena Notícia e mais uma colega, produziu um vídeo com entrevistas de pessoas beneficiadas pelos serviços da Aapecan.

Assim, é válido salientar a importância do trabalho feito pela instituição, não só em Bagé ou Pelotas, mas em suas 10 casas de apoio e 14 unidades no Estado, que oferecem atendimento específico e gratuito a pacientes oncológicos e a seus familiares.

Em Bagé, de acordo com a psicóloga Francione Souza, atualmente a entidade auxilia cerca de 170 pessoas, com fraldas geriátricas, suplementos alimentares e medicamentos, assistência social, orientação jurídica e apoio psicológico. Fora isso, a entidade também oferece grupos de apoio, aulas de reiki e oficinas de artesanato, que estão suspensos devido à quarentena.

Na Rainha da Fronteira, a associação está em atividade desde 2010 e já tem uma estrutura pronta para receber uma Casa de Apoio. Mas como se mantém através de doações, a mesma não tem como arcar com os móveis e equipamentos necessários.

Se a Casa de Apoio estiver concluída até a inauguração do serviço de radioterapia em Bagé, pelo menos cinco pacientes poderão se hospedar na Aapecan, a cada noite. Dessa forma, pessoas de cidades vizinhas e da zona rural do município poderão realizar as sessões e se hospedarem em um local acolhedor e sem nenhum custo.

Denise, que já utilizou o serviço em Pelotas, explica que Bagé necessita ter uma casa de apoio.

– Os funcionários são preparados para lidar com a gente, preparados para encontrar pessoas que estão sofrendo, pessoas que não estão sofrendo o físico, mas sim o íntimo da pessoa – complementa.

Doações para a Aapecan podem ser feitas com dinheiro, alimentos, roupas ou calçados, através do telemarketing, telefone (53) 32419929 ou na unidade, localizada na rua Breno Ferrando, nº 2325, bairro Mascarenhas de Moraes.

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